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AMÉRICA | Defensa
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O futuro da indústria de defesa brasileira

Crise de Covid-19 no Brasil: repercussões nos programas do Exército (1)

Veículo blindado Iveco 4WD LMV. Foto: Roberto Caiafa

Veículo blindado Iveco 4WD LMV. Foto: Roberto Caiafa

23/04/2020 | Belo Horizonte

Roberto Valadares Caiafa

A crise econômica causada pelo novo coronavírus revela um cenário caótico para as empresas do setor de Defesa brasileiro no futuro imediato após a pandemia. Na primeira parte deste relatório especial, o Infodefensa.com descreve o panorama atual da indústria, descrevendo a situação em que estão os diferentes programas de armas do Exército Brasileiro.

A parte dificuldades permanentes para a indústria de Defesa brasileira como a falta de previsibilidade orçamentária, a baixa escala de encomendas e os longos períodos sem compras governamentais capazes de alavancar o setor, a crise política em meio a pandemia tem potencial catastrófico para dificultar mais ainda a existência do setor.

A Base Industrial de Defesa brasileira

 

Falar da BID Brasil na atualidade é falar da Embraer Defesa e Segurança, Taurus Armas, estas duas gigantes transnacionais, e outras pouquíssimas empresas que conseguem investir recursos na construção de estruturas fabris e contratação de mão de obra local, caso da KMW do Brasil, AEL Sistemas, Avibras Aeroespacial e Iveco Veículos de Defesa, para citar algumas, empresas estas que vem lutando arduamente para manterem-se ativas nesse nicho de mercado.

Sobre a Embraer, é necessário observar que, ao atuar como prime-contractor e integradora final, ela funciona como uma espécie de montadora, subcontratando outras empresas, muitas delas estrangeiras, para complementar o seu rol de capacidades, uma dicotomia que não se alinha com o discurso nacionalista encenado por muitos que defendem a empresa.

No caso da Taurus, a situação é tão inverossímil que chegou ao ponto da empresa gaúcha considerar, em alguns momentos, retirar-se do país para manter-se operando apenas no exterior, onde a percepção dos seus produtos é positiva e os lucros muto maiores, já que a carga tributária e outros “custos Brasil” inexistem ou são infinitamente menores.

Além das empresas grandes do setor, existem pelo País muitos escritórios de representações comerciais dedicados a explorar licitações abertas pelas FFAA e Ministério da Defesa, atuando sob a ótica “do menor preço” e subcontratando fornecedores estrangeiros na maioria das vezes. Curiosamente, uma parte desses escritórios de representação estão de alguma forma afiliados a entidades que se apresentam como “defensoras da Base Industrial de Defesa Brasileira”, um paradoxo, pois muitos dessas representações nada produzem no País.

Outra peculiaridade no Brasil são as compras via Foreign Military Sales, o famoso FMS.

Importantes programas das Forças foram alavancados nos últimos anos através desse mecanismo norte-americano que, se por um lado mostra-se vantajoso ao permitir o acesso a itens militares de relativa atualidade tecnológica por valores mais baixos, por outro inviabiliza muitas empresas de Defesa brasileiras pelo simples fato de que elas não conseguem competir com as taxas de financiamento generosas e valores praticados pelos Estados Unidos.

Some-se a isso as chamadas Comissões Militares Brasileiras em Washington DC, mantidas pela FAB (Comissão Aeronáutica Brasileira em Washington), pelo EB (Comissão do Exército Brasileiro em Washington) e pela Marinha (Comissão Naval Brasileira em Washington), comissões estas criadas durante a 2ª Guerra Mundial para gerenciar e coordenar o reequipamento das Forças Armadas, a época completamente obsoletas e influenciadas por doutrinas ultrapassadas introduzidas pela chamada Missão Militar Francesa até meados dos anos de 1930.

Licitações para compra de material militar e insumos das três forças podem ser orientadas para essas comissões nos Estados Unidos, pelos motivos já explicados acima, determinando, mais uma vez, a transferência de trabalho (e recursos) para indústrias estrangeiras. Essas comissões também atuam no continente europeu com os mesmos propósitos.

Essas estratégias, ou falta de uma, impedem o Brasil de alcançar autonomia para fabricar alguns tipos de armamentos, já que sua indústria não possui tecnologia própria para tanto muito menos consegue viabilizar os investimentos necessários a consecução desses objetivos.

Isso fica claro, por exemplo, na questão dos veículos blindados, área onde o Brasil destacou-se mundialmente nos anos 70 e 80 do século passado através de empresas como as falidas ENGESA, Bernardini e outras mais.

Daquele passado de exportações em grandes volumes regrediu-se para um quadro desanimador onde modernizar ou substituir carros de combate com tecnologia dos anos de 1980 (a frota de MBT´s do EB) tornou-se uma tarefa quase impossível de ser feita sem a participação de empresas estrangeiras dedicadas ao tema.

Programas Estratégicos do Exército Brasileiro

O Exército Brasileiro, através do seu Escritório de Projetos Estratégicos, gerencia uma lista de programas responsáveis por trazer a Força Terrestre para o século XXI.

Tidos como estruturais, pela sua relevância militar e potencial industrial e tecnológico, são eles o PEE Guarani, que envolve a fabricação de uma família de veículos blindados sobre rodas, o PEE Aviação, que abrange aeronaves, armamentos e tecnologias necessárias ao efetivo funcionamento da Aviação do Exército, o PEE Proteger, concebido para a proteção de infraestruturas estratégicas nacionais, o PEE Defesa Antiaérea, voltado para a obtenção de uma inédita capacidade de defesa antiaérea missilística de médio e longo alcance, o PEE Sisfron, orientado para a defesa da faixa de fronteira terrestre brasileira que abrange quase 8 mil km, o PEE Defesa Cibernética, responsável pela defesa dos ativos de tecnologia da informação do Estado Brasileiro e das FFAA, e o PEE Astros 2020, responsável por fornecer poder de fogo dissuasório a nível estratégico para o País.

Destes, o PEE Astros 2020 encontra-se em avançado estágio de entregas, faltando definir o sistema de aeronave remotamente pilotada para as baterias de busca de alvos dos dois grupos de mísseis e foguetes, e a efetiva entrega dos mísseis de cruzeiro AV-MTC, tido como a “bala de prata” do Exército por tratar-se de uma arma sofisticada sem rival na América Latina. Essas entregas devem sofrer atrasos importantes devido à crise econômica vigente, deixando o País com sua Defesa fragilizada em um momento de grandes incertezas continentais.

Os PEE Proteger e Sisfron avançaram muito lentamente nos últimos anos, sendo incerto qual será o nível de entregas no cenário de crise pós pandemia.

O PEE Defesa Antiaérea é outra incógnita, um desenvolvimento nacional que esbarra na falta de recursos e dificuldades das empresas envolvidas para manterem-se no mercado. O cronograma atual existente não prevê algo funcionando e homologado antes de 2030, e mesmo essa janela temporal deverá ser dilatada um pouco mais devido a crise econômica causada pela COVID-19. O PEE Defesa Cibernética encontra-se em uma situação bem melhor, com o Comando responsável já implementado e atuando de forma satisfatória, inclusive na formação de pessoal necessário para o exercício dessa função altamente especializada.

O PEE Aviação avançou bastante, mas ainda falta obter um helicóptero de ataque genuíno, algo até o momento postergado. A Helibras, empresa responsável por fabricar e manter a maioria das aeronaves de asas rotativas  da AVEX vem passando por um gargalo produtivo desconfortável, na medida em que as entregas do Programa HX-BR aproximam-se do seu fim sem que outro tipo de aeronave tenha sido contratada. Isso é necessário para que a empresa mantenha o conhecimento e a estrutura produtiva existente, obtidos as custas de pesados investimentos colocados na fábrica de Itajubá (MG).

O PEE Guarani também avançou, mas a cadência de produção dos VBTP-MR 6x6 foi reduzida a um mínimo, o suficiente para justificar o mantenimento da fábrica em Sete Lagoas e seus funcionários, muitos treinados no exterior, caso dos soldadores. Com a janela aberta para a modernização e/ou substituição de alguns tipos de veículos blindados determinada pelos estudos do GT Nova Couraça, essa situação pode melhorar um pouco, mas mesmo essa oportunidade pode ser perdida, caso o Exército se veja obrigado a adiar os planos existentes por conta da crise econômica.

A KMW do Brasil investiu na construção de uma capacidade fabril no sul do País e estas instalações encontram-se atualmente subutilizadas, fato que deverá agravar-se devido ao fim do contrato de manutenção dos Leopard 1A5 em 2027, o que levaria o Exército a reutilizar práticas como canibalizar parte da frota para manter outros carros de combate com alguma disponibilidade operativa (e sem eliminar a obsolescência desses meios).

 

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