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O futuro da indústria de defesa brasileira

Crise de Covid-19 no Brasil: incerteza sobre projetos da Marinha (2)

Submarino Riachuelo da Marinha do Brasil. Foto: Roberto Caiafa

Submarino Riachuelo da Marinha do Brasil. Foto: Roberto Caiafa

24/04/2020 | Belo Horizonte

Roberto Valadares Caiafa

O Infodefensa.com publica a segunda parte do relatório especial sobre como a crise econômica que surgiu da pandemia de Covid-19 afeta a indústria de defesa brasileira. Nesta nova parcela, é detalhada a situação dos programas de aquisição de armas da Marinha do Brasil.

Programas Estratégicos da Marinha do Brasil

 

O mais importante programa da Marinha do Brasil na atualidade, sem dúvida, é o PROSUB, que entrega uma moderna base de submarinos/estaleiro e uma frota contratada de quatro submarinos diesel elétricos (de projeto francês com modificações introduzidas pelos requerimentos da Marinha) e um futuro submarino de propulsão nuclear, este cada vez mais distante a julgar pela crise econômica e seus desdobramentos.

Dos quatro submarinos convencionais, o primeiro está na fase de testes HAT/SAT e integração de armamento, o segundo está em avançado estágio de fabricação e o terceiro já teve o corte da sua primeira chapa de metal realizada, com o quarto em vias de iniciar seu processo de aquisição de material e preparação para produção. Os meios necessários para formar e treinar as tripulações desses submarinos já se encontram em serviço, tornando a Força de Submarinos da Esquadra a ponta de lança do Poder Naval brasileiro no curto prazo.

A prioridade colocada no PROSUB será determinante para que outros projetos da Marinha sofram atrasos consideráveis ou avancem em um ritmo abaixo do planejado orginalmente, caso da renovação da frota de superfície através da construção de quatro fragatas da Classe Tamandaré. O contrato referente a configuração dos equipamentos, sensores e armamentos ainda não teve todos itens escolhidos divulgados.

O Consórcio vencedor, que agrega a gigante Embraer e o estaleiro alemão ThyssenKrupp Marine Systems, dentre outras empresas, admite publicamente a necessidade de investimentos para adequar um estaleiro que só tem experiência na construção de navios civis, o Oceana (Itajaí, SC), para que este possa construir as fragatas de acordo com os requerimentos determinados pela Marinha do Brasil. Isso demandará um dispendioso maquinário especializado atualizado, ampliação de carreiras de construção (a linha de montagem propriamente dita) e adequação de uma miríade de fornecedores nacionais, buscando obter um índice de nacionalização médio de 40% para os quatro navios. Além disso, serão necessários aportes de recursos financeiros para a contratação e suporte dos radares, sonares, sistemas de gerenciamento de combate e de comunicações, treinamento de tripulações, validação de alguns sistemas de armas previstos (a maioria importados) e muitos outros detalhes não menos importantes.

Falando em sistemas de armas, o desenvolvimento do míssil de superfície naval brasileiro, o MANSUP, também deverá sentir os efeitos da crise econômica pós COVID-19. Os três disparos já realizados até o final de 2019 não empregaram ogiva de guerra, fato que em tese, quando ocorrer com êxito validará o míssil como arma. Até o momento, esses disparos serviram mais para apontar correções necessárias de modo que o programa possa seguir adiante, porém não se sabe se a crise atual terá efeitos na campanha de disparos prevista para 2020.

Tal é a dificuldade orçamentária da Marinha que mesmo a simples conclusão de dois navios de patrulha oceânica de 500 toneladas Classe Macaé, contratados a estaleiros locais tornou-se um imbróglio que já dura alguns anos e agora parece que vai ter um final. Recentemente, foi anunciado que esses navios serão concluídos dentro da premissa de licitação pelo menor preço, o que deverá, possivelmente, culminar na compras de insumos importados mais competitivos que os oferecidos pela combalida indústria naval nacional, em crise após o escândalo do Petrolão, desvio de recursos da indústria petroleira de bandeira brasileira, a Petrobrás, para financiar políticos e campanhas eleitorais fraudulentas, sangrando os cofres públicos em bilhões de reais, segundo dados divulgados pela Operação Lava Jato, investigação do Ministério Público e Polícia Federal. Com o cancelamento de inúmeros contratos com indícios de irregularidades, alguns estaleiros entraram em crise, demitiram a força de trabalho e faliram, caso dos estaleiros responsáveis pela construção dos navios Mangaratiba e Maracanã. 

Na Aviação Naval, seguem em curso a modernização dos meios aéreos como os helicópteros Super Lynx para o padrão AH-11B, em um ritmo abaixo do planejado originalmente, mesmo caso das aeronaves UH-15B capazes de operar e disparar os mísseis anti-navio Exocet e posteriormente, MANSUP. A recente compra de três helicópteros bi-turbina H-135 melhorou a disponibilidade para missões antárticas e treinamento/reciclagem de tripulações, mas ainda há muito que se fazer para que a aviação de asas rotativas da Marinha recupere sua pujança de outrora.

No caso da aviação de asas fixas, a Aviação Naval ostenta o título de ser uma das últimas operadoras dos vetustos A-4 Skyhawk, que mesmo estando equipados com um bom radar, apresentam uma capacidade militar questionável no atual cenário da guerra naval pela falta de integração de um míssil anti-superfície e armas guiadas stand-off, a frota existente servindo mais como meios de treinamento e manutenção de uma massa crítica de pilotos até que seja possível efetuar a sua substituição, algo cada dia mais premente devido a escassez de suprimentos para aviões originalmente projetados no final dos anos de 1950 do século passado. O esquadrão operador, o VF-1, só dispõe de seis aeronaves modernizadas, uma quantidade irrisória para o tamanho do vasto litoral brasileiro e sua zona econômica exclusiva (zee). Com a crise pós COVID-19, investir nestes meios de modo as portarem armamento adequado poderá tornar-se uma impossibilidade definitiva.

Afortunadamente, a Força de Fuzileiros Navais da Marinha logrou êxitos importantes na modernização de seus parcos recursos, incluindo novos Carros Lagarta Anfíbios (CLAnf) mais capazes, novo sistema de comunicações, comando e controle e direção do campo de batalha, de tecnologia israelense, e outros sucessos pontuais de menor expressão.

Porém, ainda se faz necessária a modernização ou substituição de seus carros de combate, do tipo SK-105 A2S, e a ampliação de sua capacidade na realização do vital movimento do mar para terra, razão de ser de uma força de fuzileiros. Para esse fim, a Esquadra pode oferecer dois navios relativamente modernos, o Porta Helicópteros Multipropósito Atlântico, ex Royal Navy e considerado o mais importante meio naval da América do Sul, e o Navio Doca Multipropósito Bahia, ex Marine Nationale.

Ambos são meios ainda atuais e capazes, mas brevemente deverão demandar períodos de parada para a realização de grandes manutenções, deixando o poder naval brasileiro bastante desfalcado. De fato, em um futuro muito próximo, a Marinha do Brasil será obrigada a desativar suas duas fragatas da Classe Greenhalgh sobreviventes, e as fragatas Classe Niterói, fabricadas no Brasil nos anos de 1970/80 do século passado seguirão o mesmo caminho, deixando a frota de superfície bastante reduzida. Outras classes de navios também apresentam idade avançada e precisam serem substituídos, agravando o problema.

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