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O futuro da indústria de defesa brasileira

Crise de Covid-19 no Brasil: as consequências para a Força Aérea (3)

Foto: Saab

Foto: Saab

25/04/2020 | Belo Horizonte

Roberto Valadares Caiafa

Terceira parte do relatório especial em que o Infodefensa.com pretende analisar os efeitos que a crise econômica, decorrente da pandemia de Covid-19, poderia ter no setor de defesa brasileiro. Nesta última parcela, é apresentado o estado dos diferentes programas de aquisição de material da Força Aérea Brasileira.

Programas Estratégicos da Força Aérea Brasileira

 

Transitando por um processo de reformulação implementado recentemente, a Força Aérea Brasileira talvez seja a instituição militar melhor preparada para enfrentar os desafios da crise econômico/orçamentária pós COVID-19. Isso está muito claro no documento DCA 11-118 (Diretriz de Planejamento Institucional 2019 que delineou cenários e pavimentou ações importantes para que a FAB consiga cumprir suas missões constitucionais mesmo com as incertezas orçamentárias, um problema antigo que sempre afetou as FFAA brasileiras. Esse planejamento e o tamanho da Força, a menor em termos de efetivos, ajudam bastante ao Alto Comando na consecução dos objetivos propostos pelo documento.

Seus principais programas com relação ao material de emprego em combate, razão de ser de uma Força Aérea, são o avião multipropósito de transporte KC-390 Millennium, atualmente com dois exemplares entregues, e o caça multifuncional de 4ª geração+ F.39 Gripen E/F. Focado na obtenção de tecnologias modernas e expansão da capacidade industrial do cluster aeroespacial brasileiro, esses dois programas também entregam uma capacidade militar excepcional, permitindo a Força Aérea atingir um novo patamar dissuasório/operacional.

Projetado pela Embraer Defesa e Segurança atendendo requisitos colocados pela FAB, o KC-390 chega ao mercado 11 depois do seu lançamento com um enorme potencial de exportação. A primeira venda para um cliente internacional (Portugal) comprovou o acerto na especificação e detalhes de projeto, um programa enxuto conduzido com muito profissionalismo pela indústria (Embraer) e pela Força Aérea. E mesmo com tantos acertos, certamente o novo avião enfrentará problemas orçamentários nos próximos anos.

Prova disso é que na apresentação pública feita pela Força Aérea no Senado Federal e na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN), oficiais da força já alertavam para a ocorrência de cortes nos valores destinados aos aviões encomendados no exercício fiscal de 2019 e 2020. Com a crise econômica pós COVID-19, não só os cortes deverão se avolumar como a cadência de produção e entregas deverão sofrer revisão para baixo (LRIP), estendendo a janela planejada de conclusão das entregas para além de 2028.

Gripen F.39

 

Essa situação também ameaça outro programa estratégico da FAB, a fabricação e entrega de 36 exemplares do caça F.39 Gripen, atualmente em curso, e a entrega dos armamentos selecionados para equipá-los. É sabido que os cansados caças Northrop F-5EM/FM já foram além do que deles poderia se esperar, tanto em termos estruturais quanto na reposição de insumos básicos para a manutenção de voo, e só o mundialmente conhecido expertise da FAB nesse tipo de aeronave tem permitido a extensão da vida útil de algumas células, mantendo os Esquadrões de Manaus (Amazonas), Canoas (Rio Grande do Sul), Anápolis (Goiânia) e Santa Cruz (Rio de Janeiro) com alguma capacidade operacional, em que pese a baixa disponibilidade em arsenal de mísseis para armá-los.

Uma solução seria antecipar a entrega, se o fabricante do míssil aquiescer, dos Iris-T encomendados para emprego nos F.39, integrando-os aos caças F-5EM/FM, algo relativamente simples de ser feito em termos de custos, mas mesmo essa solução, no cenário de escassez orçamentária que se aproxima no Pós COVID-19, pode não se materializar, deixando a FAB com pouquíssimos caças e mísseis disponíveis em um momento de grandes incertezas no continente sul-americano.

Falando no Tigre da Northrop, o F-5EM/FM ainda será a espinha dorsal da Defesa Aérea pelos próximos sete anos e existe um planejamento para que o modelo continue operacional até 2032! Os Gripen só estarão plenamente operacionais (IOC) depois de 2026, por isso faz-se urgente o aumento de disponibilidade da frota de F-5 e a aquisição e integração de mísseis capazes de enfrentar ameaças como o caças pesados Sukhoi Su-30 venezuelanos. Segundo cenários de emprego militar citados por fontes da Força Aérea, a hipótese de um conflito ou uso do poder militar contra a Venezuela não vai esperar o completamento da frota de Gripen e sua plena operacionalidade de combate. Ou seja, se faz urgente colocar garras e dentes mais capazes nos Tigres da FAB, pois estes farão frente a qualquer ameaça aérea no subcontinente por mais alguns anos.

O esforço industrial montado pela SAAB do Brasil em São Bernardo do Campo, com uma planta fabril paper less moderna e compacta também deverá sentir o impacto dos cortes, já que a produção dos aviões deverá ter um ritmo menor que o inicialmente planejado, dilatando prazos. Até o presente momento, e na Suécia, os atrasos de cronograma somam cerca de dois anos, devido a cortes anteriores, mas o programa avança de forma constante, com um monoposto já em voo e o primeiro biposto, exclusivo para o Brasil, começando a ser construído. Essa versão de dois lugares terá um enorme potencial de exportação, haja visto a demanda recente por aeronaves de dois lugares capazes de executar missões de guerra eletrônica e supressão de defesas antiaéreas do inimigo (SEAD). A compra recente de 45 Boeing F-18F Super Hornet pela Luftwaffe alemã indica claramente essa tendência de mercado, e o Brasil precisa aproveitar a oportunidade quando e onde ela se apresentar.

Aviação de Transporte

 

Na Aviação de Transporte, a aposentadoria dos C-130 Hércules deverá consumar-se rapidamente. Durante a Operação COVID-19 esses vetores estão prestando seu último esforço de transporte determinado pelo Ministério da Defesa, trabalhando em conjunto com a frota existente de bimotores C-105 Amazonas e os veneráveis C-95 Bandeirante modernizados. Curiosamente, foi divulgada o lançamento uma nova opção de projeto brasileiro (uma empresa formada por ex-engenheiros da Embraer em sua maioria) capaz de substituir os “Bandecos”, mas parece que a FAB deverá seguir em outra direção, encomendando uma nova aeronave a ser desenvolvida, ao que tudo indica, pela Embraer.

Não seria surpresa se esta adquirir o referido projeto e terminar o seu desenvolvimento, algo que faria muita lógica em um cenário de escassez orçamentária. Adicionalmente, o cluster aeroespacial brasileiro no Estado de São Paulo e região receberia parte do trabalho durante a fabricação destes aviões, um bônus importante na manutenção do conhecimento e capacidade produtiva de empresas brasileiras.

Asas rotativas

 

No segmento de asas rotativas da FAB, as entregas do H-225M estão quase completas, apesar dos atrasos causados por cortes orçamentários anteriores. A frota de Black Hawks, de origem norte-americana, precisa contar com armamentos mais pesados que as atuais metralhadoras Gatling (uma deficiência que acomete também a frota do modelo na Aviação do Exército, a falta de mísseis guiados). Os enormes AH-2 Sabre, uma compra que originalmente a FAB não desejava, resultado de compensações da balança comercial Brasil-Rússia, estão operando em Porto Velho (Rondônia) com uma disponibilidade de altos e baixos nos últimos anos. Curiosamente, trata-se de um genuíno helicóptero pesado de ataque (perfeito para a Aviação do Exército), mas operado pela Força Aérea como interceptador de aeronaves de baixa performance e apoio/escolta em missões SAR de Combate/infiltração de elementos do PARA-SAR, dentre outras missões.

A FAB também alinha entre seus programas estratégicos a definição de um Link de Comunicações digitais BR-2 (capaz de integrar suas aeronaves com forças terrestres e navais), a implementação de um sistema IFF nacional (identificação amigo ou inimigo), algo surpreendentemente inexistente por décadas e agora em desenvolvimento, e a industrialização e produção do míssil A-Darter, um desenvolvimento binacional Brasil/África do Sul. Comenta-se que esse programa poderia não lograr encomendas por parte da FAB, abrindo caminho para o míssil Iris-T, apesar dos altos valores investidos pela instituição no desenvolvimento do A-Darter.

Por fim, é necessário citar dois programas estratégicos de enorme potencial que também deverão sofrer atrasos devido a crise Pós COVID-19, o MICLA-BR ou míssil de cruzeiro lançável do ar, uma versão do AV-MTC originalmente encomendado pelo Exército para o Astros 2020 e atualmente na fase de testes conceituais empregando dummies (maquetes) em voo acoplados a caças F-5EM para definição de configurações aerodinâmicas para transporte e lançamento a partir do ar, e o planador hipersônico 14-X, um projeto de enorme potencial, sendo um programa capaz de aproveitar tanto os desenvolvimentos de propulsão já existentes na Força Aérea, como o motor do foguete VSB-30, esse mesmo cotado para ser utilizado como um dos estágios do sistema de lançamento do planador hipersônico, como ser adaptado para a função de emprego como arma estratégica, já que um míssil hipersônico deste porte daria a FAB um poder dissuasório extra-continental que nenhum País sul-americano teria condições de replicar no curto e médio prazo.

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