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Entrevista da INFODEFENSA

C. Roux (Airbus): "Cada vez mais países escolhem satélites duplos porque permitem dividir custos" (1)

Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para América Latina.

Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para América Latina.

24/07/2018 | Belo Horizonte

Roberto Caiafa

A Agência Espacial Peruana (CONIDA) encomendou a Airbus Defence and Space um satélite desenvolvido dentro de requerimentos próprios, o PerúSAT-1, primeiro sistema de satélite óptico de observação da Terra para o Peru. Esse satélite pioneiro foi entregue em um tempo recorde: menos de dois anos. A Airbus Defence and Space desenvolveu ainda um programa completo de transferência de tecnologia que incluiu o treinamento de mais de 60 engenheiros peruanos.

Lançado em 15 de setembro de 2016, o PerúSAT-1 é o satélite mais avançado da região. Apesar dessa compra ter gerado debates no Peru, a agência espacial peruana recuperou seu investimento em apenas um ano. A lista de tecnologias agregadas ao PerúSAT-1 permitem ao engenho trabalhar com 70 cm de resolução sub métrica. Nos primeiros 14 meses em órbita, o PerúSAT-1 cobriu 15 milhões de km2 e foram tiradas 71.000 imagens. O satélite tem 10 anos de vida útil mínima estimada e foi construído em menos de dois anos. Os serviços de observação têm uma série de funcionalidades, militares e civis. Podem ser usados no monitoramento de fronteiras, prevenção de desastres naturais, planejamento agrícola e gestão de recursos hídricos. Atualmente, o Peru e o Chile são os países da região com os satélites mais avançados.

Para falar sobre satélites de observação da Terra, programas de transferência tecnológica e co-produção compartilhada para o Brasil, entre outros aspectos necessários a elaboração de um programa satelital robusto, flexível e capaz de ser colocado em funcionamento com prazos exíguos, Infodefensa Brasil entrevistou Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para América Latina.

O que é um satélite com sensor óptico?

Existem dois tipos principais de payloads utilizados em satélites de observação da Terra: ópticos e de radar. Essas duas tecnologias são bem diferentes, sendo utilizadas para diferentes missões e finalidades. Cada uma possui vantagens, bem como limitações. Um satélite óptico é, basicamente, como se você tivesse uma câmera digital no espaço, ainda que ela seja obviamente muito mais sofisticada. As imagens feitas geralmente incluem conteúdo multiespectral, o que significa que a informação é medida de acordo com determinadas bandas de frequência, ou cores. A informação sobre as cores é muito valiosa e indispensável para algumas finalidades. Por exemplo, na agricultura, onde permite a mensuração da maturidade da plantação, com o intuito de otimizar a produção e proteger o meio ambiente, pois resultará na redução do uso de fertilizante. Esse é apenas um exemplo, mas a gama de aplicações possíveis para o uso de imagens ópticas multiespectrais é muito ampla.

Quais são suas limitações climáticas, especialmente com relação às deficiências na observação de áreas amazônicas?

A principal limitação da tecnologia de sensor óptico é que ele não consegue enxergar através de nuvens ou áreas de sombra, além de não poder ser usado durante a noite, devido à insuficiência de luz presente. É verdade que, em regiões como a Amazônia, onde o céu frequentemente se encontra encoberto, é necessário mais tempo para se obter imagens claras, com menos de 10% a 20% de nuvens. Entretanto, existem técnicas que visam mitigar esse problema, tais como levar em consideração dados de última hora sobre as condições do tempo quando se programa o satélite.

Que tipo de pacote / payload é oferecido pela empresa?

A Airbus desenvolveu uma vasta família de satélites ópticos chamada AstroBus. Esses satélites possuem tamanhos variados e apresentam diferentes níveis de desempenho, sendo propícios para todos os tipos de missão e alcançando diferentes graus de resolução, desde vários metros de distância do solo a poucas dúzias de centímetros. Isso significa que, para cada cliente e especificação, podemos oferecer uma solução que atende a todos os seus pré-requisitos, com base em um design padrão, mas com adaptações feitas sob medida para cada cliente.

O que é o sensor de radar? 

Um sensor de radar (chamado de SAR, que significa Synthetic Aperture Radar, ou Radar de Abertura Sintética) é um dispositivo ativo que transmite o sinal de radar e, em seguida, mede o sinal recebido após este ser refletido na superfície terrestre. Dessa forma, a imagem resultante não é uma imagem propriamente dita, como uma fotografia tradicional, e por isso requer conhecimento técnico mais avançado para sua análise, quando comparada com imagens ópticas.

Qual é seu desempenho em diferentes condições climáticas?

Por outro lado, o sinal de radar é capaz de atravessar nuvens, fazendo com que essa tecnologia seja eficaz independentemente das condições climáticas. Além disso, o radar pode penetrar copas de vegetação até um certo nível, dependendo da frequência selecionada. Por fim, essa tecnologia não depende da luz do sol, podendo coletar dados também durante a noite.

Quais as vantagens que este sistema oferece?

Apesar de cada tecnologia possuir pontos fortes e fracos e ser utilizada para atender diferentes necessidades, elas se complementam. A combinação das duas em uma única constelação de satélites, resulta em uma ferramenta extremamente poderosa. É por esse motivo que a constelação da Airbus, que conta com diversos satélites ópticos e de SAR, é única no mercado. Assim como para os satélites ópticos, a Airbus desenvolveu uma família de satélites de radar com diferentes capacidades, de modo a atender toda e qualquer necessidade de seus clientes.

Qual é o custo de cada sistema?

O custo total para aquisição e utilização de cada sistema depende muito do nível de desempenho desejado pelo cliente. É por isso que desenvolvemos uma família de produtos que oferecem diferentes níveis de capacidade e se encaixa nos mais diferentes orçamentos. Sistemas de radar geralmente requerem investimentos mais altos do que sistemas ópticos porque o desenvolvimento dessa tecnologia e seu uso é mais complexo.

E no que diz respeito às infra-estruturas em terra?

No caso do Brasil, muitos dos investimentos já feitos em infraestrutura em terra podem ser reutilizados por um futuro sistema de observação por satélite, seja ele óptico ou de radar. Por exemplo, o COPE (Centro de Operações Espaciais), atualmente em construção, será capaz de operar não somente satélites de telecomunicações, como também satélites de observação da Terra. Similarmente, do ponto de vista dos usuários de imagens, muitos deles já desenvolveram infraestrutura própria para processar, distribuir e armazenar imagens, sendo que tudo isso pode ser reutilizado por um futuro sistema nacional de observação da Terra.

O perfil seria militar ou acadêmico?

A arquitetura de sistemas de observação da Terra e seus respectivos contratos são diferentes daqueles encontrados no segmento de telecomunicações. No caso de sistemas de observação da Terra, a estrutura em terra é composta basicamente pela unidade de controle, utilizada para operar o satélite, e a unidade do usuário, usada para subir os pedidos e baixar as imagens feitas pelo satélite. Essas duas unidades não funcionam separadamente e geralmente são operadas pelo mesmo fornecedor. Isso previne a ocorrência de problemas na gestão dos contratos. Esse é também o principal motivo pelo qual a maioria dos clientes internacionais solicitam propostas que ofereçam um pacote de serviços completo.

Você pode nos dar um exemplo?

Esse foi o caso do sistema PeruSAT-1 entregue para a Agência Espacial Peruana (CONIDA). É também o caso do contrato que assinamos algumas semanas atrás com a GITSDA (Tailândia), chamado THEOS-2. Esse segundo, inclusive, vai um passo além em comparação com o exemplo do PeruSAT-1, pois inclui uma plataforma integrada de geoinformação, bem como um programa para transferência de tecnologia que contará com o envolvimento de fornecedores locais na produção de um segundo satélite de tamanho menor. Obviamente, um “pacote de serviços completo” não quer dizer que recomeçamos do zero cada vez que fechamos um novo contrato. No caso do sistema THEOS-2, reutilizaremos toda a infraestrutura e investimento feitos no programa anterior, o chamado THEOS-1. Entretanto, “pacote de serviços completo” significa que o cliente não assume nenhum risco relacionado à gestão de diferentes contratos e à integração das unidades correspondentes, uma vez que assina um contrato com um único fornecedor, que será responsável por entregar e colocar em funcionamento o sistema inteiro.

Qual é o potencial para o uso dual de produtos de satélite?

Uso dual quer dizer que um único sistema de satélite pode executar tanto uma missão civil quanto de defesa. Cada vez mais países escolhem implementar sistemas de uso dual, uma vez que estes permitem a divisão dos custos de aquisição e uso, otimizando o investimento total feito pelo governo. Na França, o programa Pléiades é um exemplo muito bem-sucedido de sistema de uso dual. Co-fundado pelo Ministério da Defesa e a Agência Espacial (CNES), um órgão civil, o sistema serve atualmente não só todos os usuários franceses das áreas civil e de defesa, como também é operado pela Airbus para servir o mercado internacional, inclusive para atender usuários comerciais.

A Airbus não é novidade para isso.

Além do sistema Pléiades, possuímos muita experiência no desenvolvimento de sistemas de uso dual, sejam eles sistemas ópticos ou de radar. Especialmente no mercado de exportação, no qual possuímos uma posição de liderança com mais de 25 anos de experiência, a grande maioria dos sistemas que entregamos são de uso dual, servindo não apenas usuários civis, como também aqueles que servem à defesa. É claro que o nível de autonomia e prioridade dedicados aos usuários finais do segmento de defesa podem ser adaptados para atender aos pré-requisitos específicos de cada cliente. Todos os sistemas de satélite que compõem nosso portfólio, sejam eles ópticos ou de radar, são capazes de desempenhar missões de uso dual.

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