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Entrevista da INFODEFENSA

C. Roux (Airbus): "No Brasil temos que ir além do que fizemos na Argélia com o Alsat-2" (y2)

Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para América Latina.

Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para América Latina.

25/07/2018 | Belo Horizonte

Roberto Caiafa

Vem de 'C. Roux (Airbus): "Cada vez mais países escolhem satélites duplos porque permitem dividir custos" (1)'

Os satélites de observação da Terra e os programas de transferência de tecnologia e coprodução compartilhada que os complementam são cada vez mais importantes na América Latina, onde eles têm alguns dos exemplos mais reconhecidos neste campo, como o PeruSAT-1, e especialmente no Brasil, onde estão pendentes o desenvolvimento de um robusto programa de satélites, flexível e capaz de ser colocado em operação com prazos apertados. Para saber mais sobre esses sistemas, a Infodefensa entrevistou Christophe Roux, vice-presidente sênior da Airbus Defence and Space para a América Latina, em uma entrevista que foi dividida em duas partes devido à sua extensão. A segunda e última parte desta entrevista é reproduzida abaixo.

Pode a experiência adquirida com o Peru ajudar na definição das demandas militares brasileiras?

O programa PeruSAT-1 é, de fato, referência em diferentes aspectos e algumas das lições aprendidas por meio dele podem ser úteis na operação de sistemas em outros países. Por exemplo, a escolha por um sistema de Resolução Muito Alta com resolução verdadeiramente submétrica (70cm) é a melhor opção para se atender ao maior número possível de finalidades de imagens e usuários, tanto do segmento de segurança nacional quanto civil. Outro ingrediente essencial para o sucesso do programa foi o acesso direto à nossa frota completa de satélites ópticos e de radar desde o primeiro dia do contrato. Isso permitiu que usuários peruanos pudessem desenvolver seus próprios aplicativos, que estavam prontos para serem usados quando o PeruSAT-1 foi lançado em órbita. Dessa forma, tudo ficou pronto ao mesmo tempo, não apenas o sistema de satélite como também já haviam usuários treinados para fazer uso das imagens coletadas. Conjuntamente com o acesso aos nossos satélites, entregamos também um abrangente programa de transferência de tecnologia com o intuito de desenvolver a capacidade peruana, para que o país pudesse operar seu satélite e utilizar as imagens obtidas de maneira autônoma.

Mas haverá diferenças.

O Brasil representa um caso diferente com necessidades diferentes. Eles já possuem um setor espacial, que será desenvolvido mais ainda por meio de conteúdo local e transferência de tecnologia dedicada. Além disso, já existe uma comunidade de usuários de imagens, tanto dos segmentos de defesa quanto civil. Como disse anteriormente, a maioria dos sistemas que entregamos para clientes europeus ou internacionais são utilizados parcialmente para fins de defesa nacional, apesar de isso ser mais ou menos transparente. Portanto, temos certeza de que nossa experiência como um todo, e não apenas aquela obtida com o programa do PeruSAT-1, pode ajudar o Brasil a construir capacidade para atender suas demandas de defesa e segurança nacional.

Qual a plataforma a empresa oferece ao Brasil para esse tipo de satélite?

Podemos oferecer diversas plataformas que atendam às necessidades brasileiras. Todas elas podem acomodar a participação da indústria brasileira, com diferentes níveis de envolvimento e em diferentes subsistemas. Claro que isso é um pouco mais complicado quando se trata do payload, pois eles são mais complexos do ponto de vista tecnológico, mas temos algumas ideias sobre como lidar com isso. O programa ALSAT-2, que entregamos para a Agência Espacial Argelina (ASAL) é um ótimo exemplo de como isso pode ser feito com sucesso. O programa incluiu dois satélites que estão atualmente operando em órbita perfeitamente. O primeiro satélite foi integrado nas instalações da Airbus em Toulouse (França), com a participação direta da equipe do cliente em todas as etapas do processo, em conjunto com a equipe da Airbus. Já o segundo satélite foi integrado nas instalações da ASAL e contou com apoio in loco da equipe da Airbus.

E no caso específico do Brasil?

Novamente, o caso do Brasil é um pouco diferente, pois o país já possui capacidade doméstica em termos de subsistemas e equipamentos. Então, precisamos ir além do que fizemos no programa do ALSAT-2. Porém, já provamos que sabemos como fazer isso de maneira eficiente. Já fizemos contato inicial com algumas empresas aeroespaciais brasileiras. Inclusive, já demos início a parcerias com algumas delas, visando qualifica-las para atuarem em nossa cadeia de suprimentos.O desenvolvimento da indústria local deve ser planejado no longo prazo e implementado de maneira progressiva, de modo a mitigar riscos e garantir resultados do ponto de vista técnico, financeiro e de cronograma. A transferência de tecnologia de forma progressiva e contínua é essencial.

Qual o nível de ToT existente nas propostas de satélites de observação terrestre?

A transferência de tecnologia depende muito das necessidades específicas de cada cliente e o tipo de tecnologia pela qual ele se interessa. A capacidade da Airbus no quesito de transferência de tecnologia é singular, pois nossa empresa possui tecnologias que abrangem todo o espectro da cadeia de valor de observação da Terra, fazendo com que seja possível transferir tecnologia de diferentes áreas, desde design a produção até a integração e testes, além de operações do sistema e aplicações das imagens. Nos últimos 25 anos, a Airbus forneceu programas de ToT para mais de 400 pessoas de 25 países, adquirindo assim profunda experiência nessa área, o que acreditamos ser um diferencial no setor.

 Alguma empresa brasileira interessa a Airbus especificamente?

Como disse anteriormente, a Airbus está em contato com diversas empresas espaciais brasileiras. Nosso objetivo é encontrar a melhor maneira de ajudar o desenvolvimento da indústria espacial do país e fazer parte dessa história.

Como a experiência peruana pode ser mensurada nos quesitos fabricação local (ou não) de itens dos payloads?

O programa PeruSAT-1 foi muito desafiador, mas acabou sendo muito bem-sucedido em vários quesitos. Conseguimos desenvolver um novo produto, chamado agora de AstroBus-S em nosso portfólio, em menos de dois anos, um recorde mundial, já que satélites dessa categoria geralmente demoram mais de quatro anos para serem entregues. Tivemos que inovar, introduzir novas abordagens e novas maneiras de se trabalhar. A equipe do projeto fez um trabalho realmente excelente, inclusive transferindo tecnologia para a equipe do cliente simultaneamente, de maneira conjunta. Todos as demandas foram atendidas e todos os prazos foram cumpridos. O sistema está funcionando perfeitamente, o cliente está usando-o de maneira completamente autônoma e o número de usuários das imagens produzidas pelo PeruSAT-1 vem aumentando exponencialmente. Inclusive, a CONIDA concluiu que o investimento total feito foi recuperado em menos de dois anos de utilização do sistema.

Quanto seria necessário investir/pagar, imaginando um cenário onde ocorreria a construção de um satélite de cada tipo para o País?

O investimento necessário não é tão alto quando se pensa nos benefícios trazidos pelo uso das imagens geradas. Como mostrado no caso do Peru, o retorno total sobre o investimento pode acontecer rapidamente, mesmo em um país onde não havia um mercado local de usuários de imagem antes da criação do programa. O Brasil já possui um mercado doméstico, então o investimento poderia ser recuperado ainda mais rapidamente. A implementação de conteúdo local irá obviamente estender o cronograma, além de aumentar os custos e riscos. Porém, como disse anteriormente, tais riscos podem ser mitigados se a implementação for progressiva e se a indústria brasileira tiver tempo suficiente para receber e assimilar essas novas tecnologias. O problema é que os usuários de imagens querem ter acesso à elas o mais rápido possível, então será preciso chegar a um meio termo.

E com o tempo?

Uma possível ideia seria desenvolver dois satélites: um a ser produzido sem conteúdo local, que seria lançado dentro de dois anos para atender à demanda dos usuários o mais rápido possível, e um segundo, que seria desenvolvido com a participação da indústria brasileira e contaria com uma extensão de prazo de um ou dois anos. Dessa forma, ambos os satélites estariam funcionando na constelação brasileira em um prazo total de 4 anos. Nesse cenário, a percentagem de conteúdo local seria aumentada gradativamente para os próximos satélites construídos, que progressivamente aumentariam a constelação de satélites brasileiros.

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