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Entrevista Infodefensa.com

TB Baptista: "As análises determinaram que o KC-390 seria competitivo em todo o mundo se fosse antes de 2020"

tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista Jr.

tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista Jr.

15/11/2019 | Belo Horizonte

Roberto Valadares Caiafa

O Programa do jato de transporte militar Embraer KC390 lista dois marcos recentes, a entrega do 1º exemplar à Força Aérea Brasileira (de 28 encomendados) e a primeira venda internacional, cinco exemplares para Portugal, negociados unto a um pacote que inclui simuladores, suporte logístico, treinamento, etc (ver primeira parte do artigo).

Infodefensa entrevistou o tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista Junior sobre o Programa KC390, já que este oficial general teve uma importante participação quando integrava a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), responsável pelos Programas Estratégicos da Força Aérea Brasileira.

Brigadeiro, o senhor teve uma destacada atuação na COPAC, nas fases iniciais do Programa KC390, e hoje, atuando junto ao Ministério da Defesa como Chefe de Operações Conjuntas do Estado-maior Conjunto das Forças Armadas, vislumbra a participação do avião em diversas operações militares interagências. Certamente, as capacidades da aeronave serão fundamentais. O KC390 traz no seu bojo um enorme esforço industrial liderado pela Embraer que reúne, num mesmo “guarda-chuva”, diversos fornecedores nacionais e internacionais para diferentes sistemas e tecnologias. Como o senhor avalia o “choque tecnológico” que o KC390 trará não só para a Aviação de Transporte da Força Aérea Brasileira (FAB), mas para o cluster aeroespacial brasileiro?

O KC-390 nasceu, em 2007, de uma convergência de interesses entre a Embraer Defesa e Segurança (EDS) e a Força Aérea Brasileira. A FAB, que por mais de quatro décadas já operava aeronaves C-130 Hércules iniciava a época estudos para a implantação de uma nova plataforma de transporte médio. A Embraer, que havia concluído o desenvolvimento da família de jatos comerciais E-Jets de 1ª geração, precisava evitar a ociosidade de sua excelente equipe de engenheiros, alocando-os em novos projetos. Durante as análises de viabilidade da empresa, um estudo de prospecção do mercado mundial levou à conclusão que, a exemplo da FAB, a demanda por aeronaves da classe do C-130 parecia justificar o desenvolvimento de um novo cargueiro, que seria bastante competitivo caso pudesse ser ofertado a preços competitivos e, principalmente, se estivesse pronto para aquisição antes de 2020.

A opção foi o desenvolvimento de uma aeronave incorporando soluções de engenharia e sistemas comprovadamente eficientes do ponto de vista operacional e logístico, que pudesse ser totalmente desenvolvida em dez anos e apresentando custos de aquisição e operação inferiores aos demais produtos existentes no mercado. O resultado foi o KC-390, uma aeronave capaz de realizar uma enorme gama de missões típicas de força aérea, e que incorpora o que há de mais moderno disponível. Dez anos depois, estamos disponibilizando aos nossos pilotos de transporte uma aeronave da qual jamais se esquecerão.  Mundialmente falando, mantemos a crença de que será uma aeronave “vencedora”, a ser operada por diversos países.

Durante recente exposição sobre o Programa KC390 no Congresso Nacional, realizada pelo gestor da COPAC, Brigadeiro do Ar Valter Borges Malta, ficou patente o descompasso entre as necessidades orçamentárias do Programa e o que está previsto na Proposta de Lei Orçamentária (PLOA 2020). Enquanto a Aeronáutica trabalha com uma previsão orçamentária de R$ 1,06 bilhões, a proposta em discussão no Congresso prevê o repasse de apenas R$ 439 milhões, menos da metade do valor necessário. Os anos de 2021 e 2022 demandariam R$ 1.06 bilhões e R$ 1.03 bilhões, respectivamente, segundo o planejamento da FAB. O Ministério da Defesa, ciente das dificuldades vividas pela Força Aérea, também poderia atuar para mitigar ou equacionar de forma positiva essa disparidade entre necessário e previsto no orçamento?

Em quaisquer empresas, as grandes estratégias passam pela adaptação das demandas às capacidades; das realizações aos recursos. Na composição do orçamento federal, estas restrições também costumam ocorrer, tendo em vista as inúmeras demandas apresentadas pelas diversas áreas estatais frente aos recursos, sempre insuficientes. No caso do KC-390, as restrições orçamentárias poderão acarretar alterações contratuais, sendo possível alguma mudança na cadência de entrega, ou outras julgadas adequadas pelas FAB e Embraer. Em paralelo, o Ministério da Defesa mantém suas ações no sentido de ampliar os limites orçamentários para as forças armadas, principalmente os necessários aos seus projetos estratégicos, como é o caso do KC-390.  

O KC 390 é tido como um “game changer” na faixa de 26 toneladas. O projeto tem enorme potencial para exportações, a compra portuguesa sendo a primeira de muitas outras, espera-se. O Ministério da Defesa oferece que mecanismos para apoiar a Força Aérea e a indústria aeroespacial brasileira nesse intuito de exportar o avião?

Confio que as mais importantes ferramentas de promoção do KC-390 serão seu desempenho operacional, o baixo custo do ciclo de vida e sua capacidade de cumprir, com eficiência, diversas missões. Entretanto, tenho a aquisição das cinco aeronaves pela Força Aérea Portuguesa como um evento de elevada importância, pois, além de ratificar a confiança do País (um dos parceiros estratégicos do projeto) no produto, abre as portas para que o KC-390 seja exportado para os membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Com relação ao Ministério da Defesa e ao Governo Federal, há diversas ações de promoção do avião em estudo ou já disponíveis, tais como regimes tributários diferenciados, fontes de financiamento exclusivas e estruturação de uma joint venture com a norte-americana Boeing. Pessoalmente, penso que veremos diversas outras forças armadas e operadores civis tendo o prazer de voar nossos KC-390.

Como ex-integrante do COPAC, e pensando em Força Aérea Brasileira quais marcos do programa (alcançados em pouco mais de uma década) o senhor poderia destacar?

O mais importante foi, certamente, a decisão pela empreitada, pois que envolvia diversos riscos, comuns nestes processos de concepção, desenvolvimento e produção de aeronaves tão complexas. Em seguida, os dois contratos para as fases de desenvolvimento, a consolidação das parcerias com os inúmeros fornecedores, o voo do primeiro protótipo, os contratos de aquisição do Brasil e de Portugal, o término da certificação e, finalmente, a entrega, à FAB, da primeira aeronave de série. Foram dez anos de muito trabalho. Que esta relação resumida não nos traga a impressão [errada] de que foi um processo simples. Sou testemunha da coragem, da capacidade e do empenho dos inúmeros atores, públicos e privados, responsáveis por esta história de sucesso.

O KC390 certamente terá um papel decisivo no apoio às operações do Exército na Amazônia, Brigada Paraquedista, e na logística necessária ao deslocamento de tropas e suprimentos dentro e fora do Brasil, quando necessário. Como o senhor avalia as capacidades do avião em situações de mobilização das FFAA, ou no combate a incêndios florestais (recentemente uma agenda repetida insistentemente na chamada “grande mídia”), ou ainda, nos casos de apoio a situações onde ocorrem desastres naturais, por exemplo?

A exemplo do que ocorre para o desenvolvimento de sistemas e produtos complexos, o KC-390 foi concebido para atender às necessidades operacionais da Força Aérea Brasileira, tanto para o emprego do poder aéreo quanto de apoio às demais forças armadas ou órgãos governamentais. A partir de tais necessidades, foram estabelecidos requisitos (técnicos, logísticos e industriais), que balizaram todo o processo, e que serão cumpridos pelo produto final. Desta forma, o KC-390 cumprirá não só as missões em proveito da FAB, mas também de outros órgãos ou instituições, como o combate a incêndios florestais, apoio ao Programa Antártico ou missões em proveito do Exército Brasileiro ou da Marinha do Brasil.

Para finalizar essa entrevista, brigadeiro, o senhor diria que está otimista com os rumos do programa?

Ao agradecer a oportunidade que me foi dada de trazer aos leitores de Infodefensa alguns conhecimentos sobre o processo de desenvolvimento, produção e operação da aeronave KC-390, gostaria de registrar minha crença de que apenas as ações estratégicas são capazes de mudar o “status quo” de uma dada atividade. Assim devem ser vistos os programas estratégicos. O KC-390, concebido há mais de uma década, significará a mudança de patamar da Força Aérea Brasileira, da Embraer, dos diversos parceiros estratégicos que acreditaram no projeto e, certamente, dos inúmeros operadores que terão o privilégio de terem esta aeronave em suas frotas.

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