L. Narby Saab "Nossa planta no Brasil pode fornecer aeroestruturas para outros mercados de aviação militar ou comercial"
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L. Narby Saab "Nossa planta no Brasil pode fornecer aeroestruturas para outros mercados de aviação militar ou comercial"

Linus Narby, head do contrato Gripen Brasil na Saab. Foto Saab
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O Programa Gripen Brasileiro tem sob sua responsabilidade a fabricação de um lote inicial de 36 aeronaves de combate de 4ª geração Gripen E/F encomendados pela Força Aérea Brasileira (FAM) a empresa sueca Saab.

Desse total, os aviões de dois lugares (oito exemplares) e parte dos monoplaces serão manufaturados no Brasil pela Saab Aeronáutica Montagens (SAM), unidade industrial localizada na cidade de São Bernardo do Campo, no Esta do de São Paulo.

O acordo assinado entre os Governos do Brasil e da Suécia prevê a execução de 60 projetos obrigatórios, envolvendo pesquisa, tecnologia, treinamentos teóricos e práticos, desenvolvimento e produção. Até o ano de 2025, cerca de 350 engenheiros e técnicos brasileiros, de empresas integrantes do projeto, terão passado por Linköping, sede da Saab na Suécia, onde receberão um total de 600 mil horas em treinamentos.

A maioria dos brasileiros que já passaram pela Escandinávia atuam no Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (GDDN, em inglês), dentro da planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista.

A Saab vai fabricar sozinha 13 unidades do Gripen brasileiro – como é o caso do primeiro deles, o FAB 4100, que veio da Suécia e foi apresentado em Brasília em 23 de outubro de 2020, Dia do Aviador.

Nos planos de produção, oito caças serão construídos na Suécia, mas finalizados no Brasil, e 15 serão montados no GDDN, dentro da Embraer. Algumas partes e componentes do Gripen estão sendo produzidas no país, na fábrica de aeroestruturas da Saab e por outras empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança brasileira (BIDS).

Para conhecer o estágio atual desse complexo contrato (Saab SAM e GDDN), Infodefensa.com entrevistou Linus Narby, head do contrato Gripen Brasil na Saab.

A Saab Aeronáutica Montagens faz parte da cadeia global de fornecimento da Saab? Se sim, ela pode ser usada para a produção de aeroestruturas de qualquer novo contrato Gripen da Saab?

A Saab Aeronáutica Montagens faz parte da cadeia global de fornecimento da Saab. A fábrica em São Bernardo do Campo já produz aeroestruturas para o Gripen E/F e pode ser usada em futuros contratos do Gripen.

Além do cone de cauda já entregue, também serão fabricados na SAM os freios aerodinâmicos, fuselagem traseira, caixão das asas e fuselagem dianteira do Gripen F, segundo os informativos da empresa. Qual a sequência de fabricação desse material a partir de 2021?

A fábrica de aeroestruturas da Saab no Brasil entregou o primeiro cone de cauda para o Gripen E/F em dezembro de 2020. Na ocasião, a peça foi enviada para Linköping para montagem final. Em março de 2021, temos a entrega do primeiro par de freios aerodinâmicos, que deverá ser enviado para a fábrica em Linköping no início de abril. A produção segue agora com a fuselagem dianteira da versão monoposto, fuselagem traseira, caixão das asas e a fuselagem dianteira da versão biposto.

Qual dessas aeroestruturas é a mais complexa e que demandará mais tempo e mais peças para ser produzida?

Depende do ângulo analisado. Se considerarmos o grau de precisão e sofisticação, o caixão das asas seria a aeroestrutura mais complexa produzida na fábrica da Saab no Brasil, uma vez que também é feito a partir de material compósito. Agora se analisarmos o tempo de produção e o número de peças, seria a fuselagem dianteira.

Para alcançar a qualidade exigida na fabricação de peças, componentes e aeroestruturas de um caça avançado como o Gripen, a fábrica certamente deve possuir um Sistema de Gestão da Qualidade. Quais as normas seguidas pela SAM no processo de industrialização?

A subsidiária brasileira trabalha com as mesmas ferramentas, conceitos, softwares e tecnologias usadas na produção do Gripen em Linköping. Igualmente importante, a fábrica da Saab no Brasil estabeleceu um Sistema de Qualidade que replica o da Saab para produção de aeroestruturas em todos os aspectos, com algumas adaptações considerando as condições de operação e a legislação do Brasil. O programa de transferência de tecnologia também inclui treinamento para especialistas de qualidade que vão trabalhar na produção aqui no país. Em todas as estações de fabricação de estruturas de aeronaves, técnicos e engenheiros trabalham com o método de definição baseado em modelo (MDB, do inglês Model-Based Definition method). Resumindo, MBD significa que o modelo 3D de um produto carrega todas as informações necessárias, como dimensões, tolerâncias, métodos de fabricação, além de informações de montagem, materiais e muito mais, concentrando todas as informações em um só lugar. Isso elimina o uso de qualquer tipo de documentação em papel na área de produção, uma diferença aparentemente simples, mas que tem um grande impacto em toda a cadeia de desenvolvimento. Ao usar o MBD, você tem bancos de dados comuns que todos podem acessar ao mesmo tempo. Isso facilita a "engenharia simultânea", proporcionando tempos de execução reduzidos em projetos de desenvolvimento. Quando tudo está em 3D, é possível simular o produto e a montagem, possibilitando detectar e eliminar problemas em um estágio bem anterior. Você pode perceber evidências de que o MBD está melhorando a qualidade do produto hoje na produção do Gripen E, em que todas as peças se encaixam extremamente bem sem qualquer usinagem adicional na montagem. O MBD não é novo para a Saab, pois o primeiro projeto piloto ocorreu em 2004 na forma de uma amostra de teste para a aeronave Boeing 787. Em 2009, foi decidido que o MBD seria usado para o Gripen E.

Quais são os desafios envolvidos na produção de uma aeroestrutura? A mão de obra exige qualificação especializada?

A produção de aeroestruturas de um caça moderno é muito desafiadora, porque lida com tolerâncias rigorosas, mão de obra altamente qualificada e aderência aos requisitos de segurança de voo e garantia de alta qualidade. A planta de aeroestruturas da Saab no Brasil conta hoje com cerca de 70 profissionais altamente qualificados, a maioria engenheiros e montadores. Mais da metade deles passou por treinamento teórico e prático na Suécia, por períodos que variam de 12 a 24 meses. Além disso, desde o ano passado, a Saab dispõe de uma equipe de produção formada por experientes engenheiros e montadores suecos no Brasil. Esse time tem o objetivo de apoiar os funcionários brasileiros na montagem do fluxo de produção para garantir uma produção de peças de acordo com os padrões da fábrica em Linköping.

Após os trabalhos relativos aos 36 caças do lote inaugural, a fábrica de aeroestruturas da Saab no Brasil estará apta para, entre outras coisas, atender encomendas de mais Gripen, seja do Brasil (2º lote) ou de outros clientes?

A planta de aeroestrutura da Saab no Brasil foi estabelecida para apoiar inicialmente o programa Gripen. No entanto, seus recursos são adequados para fornecer aeroestruturas para outros mercados de aviação militar ou comercial.

Qual a sequência de eventos programados para os voos de 2021?

O primeiro Gripen E chegou ao Brasil em setembro de 2020 para dar continuidade à campanha de testes de voo no Centro de Ensaios em Voo do Gripen (Gripen Flight Test Center - GFTC), localizado na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto, no estado de São Paulo. O GFTC está integrado ao programa de teste já em execução e em fase plena na Saab em Linköping desde 2017. Além disso, produz resultados para todos os programas do Gripen E. Ele coleta, em tempo real, as informações de telemetria dos voos, de forma criptografada, que são posteriormente analisadas pelos pilotos, técnicos e engenheiros envolvidos na campanha de testes, realizada pelo Brasil e pela Suécia. A estrutura do GFTC faz parte da transferência de tecnologia do Programa Gripen. Essa é uma atividade realizada em parceria com a Embraer e visa construir os procedimentos e a capacidade de testar novos recursos durante a vida do Gripen na FAB. As atividades no Brasil incluem testes de sistemas de controle de voo e sistemas climáticos. Também tem como objetivo testar a aeronave no clima tropical. Características únicas das aeronaves brasileiras, como integração de armamentos e sistema de comunicação Link BR2 - que fornece dados criptografados e comunicação de voz entre as aeronaves - também serão testadas no Brasil.

Infodefensa- O Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen agrega o trabalho e conhecimento da Saab e da Embraer. Quais as capacidades de pesquisa, desenvolvimento, formação e manutenção existentes na unidade?

Inaugurada em novembro de 2016, o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (GDDN) é o polo de transferência e desenvolvimento de tecnologia dos caças no Brasil. Hoje trabalham no local cerca de 120 engenheiros - 100 brasileiros da Embraer e 20 suecos da Saab no desenvolvimento do Gripen E/F em áreas como sistemas veiculares, engenharia aeronáutica, projeto de fuselagem, instalação de sistemas, integração de sistemas, aviônica, interface homem-máquina e comunicações.

Outras empresas participam do processo?

A Saab e a Embraer colaboram no trabalho de desenvolvimento do Gripen em conjunto com outras empresas brasileiras e a Força Aérea Brasileira (FAB). O simulador de plataforma de desenvolvimento do Gripen E (S-RIG) é um bom exemplo de trabalho realizado em parceria entre Saab, Embraer, Atech, AEL Sistemas e FAB. Essa plataforma permite que as empresas brasileiras adquiram conhecimento tecnológico para operar esse tipo de simulador, além de apoiar o desenvolvimento de caças modernos. O S-RIG é utilizado para testar novos hardwares e softwares desenvolvidos na GDDN ou em Linköping, em um ambiente simulado, bem como para treinamento de piloto”.

Qual a meta a ser alcançada no auge do programa em termos de pessoal?

No total, a Saab vai treinar mais de 350 técnicos e engenheiros brasileiros em um programa de transferência de tecnologia previsto para ocorrer em 10 anos. Desde 2015, mais de 230 pessoas já foram capacitadas na Saab em Linköping, Suécia. Para cada área, há um programa específico de treinamento e transferência de tecnologia, que refletirá o aumento de novas capacidades da indústria de Defesa nacional. Isso soma mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos, incluindo sistemas de comunicação (Link BR2), integração de armas, testes de voo, aviônicos, sistemas, aerodinâmica, produção, montagem dos componentes estruturais da fuselagem do Gripen E/F e manutenção, entre outras áreas.

Qual papel estará reservado ao GDDN no futuro, em se tratando do suporte à frota brasileira de Gripen?

O principal objetivo do GDDN é fornecer autonomia nacional ao Brasil no que diz respeito ao suporte logístico, integração de novas armas e sensores, desenvolvimento de capacidades aprimoradas e resolução de problemas de obsolescência futura durante os 40 anos de vida previstos do programa.

O Simulador existente no GDDN é o único do tipo fora da Suécia. Como ele funciona/para que é utilizado? Ele pode conectar-se em rede com outras instalações semelhantes?

O simulador de plataforma de desenvolvimento do Gripen E (S-Rig) é utilizado para testes de desenvolvimento e verificação de sistemas e subsistemas do Gripen no Brasil e também para treinamento de pilotos. Com esta plataforma, novos hardwares e softwares podem ser testados em um ambiente simulado e controlado, para investigar erros, replicar eventos de falha e treinar as tripulações do Gripen. A inauguração do S-Rig foi um marco importante no programa Gripen, pois dá ao GDDN maior autonomia para conduzir mais projetos de desenvolvimento no Brasil.

O Centro Projetos e Desenvolvimento do Gripen poderá, no futuro, ser empregado no desenvolvimento de outros programas de Defesa de interesse da Força Aérea?

Sim, isso é possível. O GDDN hoje é o centro de excelência do Gripen F no mundo. Após a entrega, o simulador de desenvolvimento continuará sendo útil para a Força Aérea Brasileira e a indústria de Defesa nacional, para desenvolver e testar novas funcionalidades para o caça, como a integração de novos armamentos.



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